sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O Post que eu não queria postar

É o assunto que mais mexe comigo e que é impossível conversar sobre ele sem que eu desabe em lágrimas.

Mas eu preciso falar. Preciso escrever sobre isso.

Então vamos lá.~


Hoje fazem 2 meses e 9 dias que vim para a Itália e deixei minha pequena no Brasil. Toda vez que páro pra pensar nisso, eu choro, sofro, me desespero.

O que me consola é saber que estou fazendo o que julgo melhor. Não sei se estou fazendo a coisa certa (centenas de pessoas dizem que não) mas eu acho que estou, sim, fazendo a coisa certa.

Eu sou uma inconformista. Sempre fui. Se não fosse, estaria ainda com meu ex-marido, numa pseuda-familia feliz, com minha filhinha estudando em maravilhosas escolinhas particulares, mas com um pseudo-pai, pseudo-amoroso, pseudo-responsável... e nada pseudo violento. Ou ele teria nos matado, ou estaríamos trancadas em algum calabouço. E isso não é uma hipérbole.

Minha filha perdeu o primeiro dentinho, sabiam? Fazem 24 dias. E eu não estava lá. Eu nem mesmo vi, porque ninguém teve a caridade de tirar uma foto dela e me mandar. Essas pessoas pensam que eu deixei minha filha lá por puro capricho, por pura frieza, por pura crueldade.*

O que eu deveria ter feito? Ter ficado mais 3 anos e meio longe dela, mesmo no Brasil, esperando me formar na Faculdade... depois rezar para encontrar um emprego, onde eu pudesse receber a vergonha de 1500 reais mensais? E esperar 10 anos pra dar entrada em uma casa, depois passar 50 anos pagando? E comprar um carro que quando eu enfim conseguisse terminar de pagar, ele valeria menos de 3 vezes a metade de todo o dinheirinho suado que eu investi nele? E colocar minha filha numa creche, depois numa escola pública, onde graças à esse ensino maravilhoso de que o governo tanto se orgulha ela entraria na faculdade sem conseguir entender o que eu escrevo aqui no Blog?

Não

Não

Não

Não

Não

Mil vezes não.

Não sou esse tipo de pessoa, que acha maravilhoso ter a sorte de pagar uma casa em 50 anos. Não sou esse tipo de pessoa que acha maravilhoso encontrar uma vaga pra sua filhinha em uma escola pública perto de casa, depois de ter passado uma semana dormindo na fila. E achar maravilhoso que sua filha esteja estudando, mesmo que ela não esteja aprendendo de verdade.

Não sou assim. Não sou assim.

Não sou assim e NUNCA vou ser.

Ouviram bem??? EU NUNCA VOU SER ASSIM. E PONTO.

Não vou criar minha filha vendo as amiguinhas tendo tudo que ela quer, sem que ela possa ter.

Não vou criar minha filha vendo os amiguinhos indo pra escolinha linda que ela tanto quer ir, mas que infelizmente a mamãe não tem dinheiro pra pagar.

Não vou criar minha filha vendo todas as amiguinhas saindo de casa com roupinha de balé, que ela queria tanto fazer, mas que a mamãe também não tem dinheiro pra pagar.

Não vou ser assim. Me recuso a ser assim.

E se eu tiver que trabalhar o resto da vida só para dar a ela tudo o que ela quiser, eu vou trabalhar.

Nem preciso dizer o quanto eu sinto desprezo pelas pessoas que me olhavam na rua da cidade onde ela morava e gritavam com o olhar: "Mãe desnaturada. Deixa a filha aqui e vai embora". É, eu não sinto raiva. Sinto desprezo e um pouco de pena.

Pena porque elas acham maravilhoso o filho delas estarem na quarta série do ensino fundamental e não saberem ler. Pena porque o marido delas acha que estudar não é importante, já que o filho deles vai ser empregado na mesma firma onde o pai trabalha, e levar 20 anos pra conseguir ter um salário vergonhoso de 1.000 reais. Pena porque o filho deles nunca conseguirá ler um livro e entender do que o livro realmente se trata.

"Você deveria colocar sua filha numa creche!"... é o que essas pessoas diziam.

Sim, eu deveria colocar minha filha numa creche, raspar a cabeça dela pra não pegar piolho, comprar uma armadura pra ela sobreviver a todos os dias de tapas e pontapés que só quem já trabalhou em uma creche pública sabe o quanto dói e deveria comprar quilos e quilos de sabão, pra lavar a boca dela toda vez que ela chegasse em casa dizendo "vai cag..., seu desgraçad... filho da put..." aos 6 anos de idade.

Sim, eu deveria fazer tudo isso pra ficar ao lado dela... mas me recuso a fazer.

Estou me sacrificando, sacrificando ela, perdendo anos valiosos de sua infância que nunca mais vão voltar só pra dar a ela o 'luxo' de poder ser alguém um dia.

Que péssima mãe eu sou. (Estou sendo irônica)

Deveria cobrir ela de beijos, todos os dias, e me desculpar todas as noites, por dar a ela a minha maravilhosa presença e privá-la de uma boa educação.

Isso é ser uma mãe maravilhosa? Só se importar com o amor?

Uma mãe deixa de amar um filho, ao fazer algo para dar a ele uma boa educação?

Por que as pessoas só vêem beijos e abraços como gestos de amor?

Por acaso eu deixo de amar minha filha, estando longe dela? Por acaso eu deixo de pensar nela? Deixo de chorar por ela? Deixo de me lamentar por estar perdendo a infância dela? Deixo de me preocupar se ela está escovando os dentes todos os dias? Deixo de me preocupar se as bolinhas estão atormentando ela?

Sabe o que eu faço?

Eu choro todas as noites, porque eu gostaria de colocar ela pra dormir.

Eu choro todos os dias quando acordo, porque eu gostaria de desejar a ela um bom dia e preparar-lhe o café da manhã.

Eu sinto falta dela cada segundo de minha existência, e até respirar se torna algo difícil de se fazer quando eu penso nela, porque a dor no meu peito é tão grande que parece esmagar os meus pulmões.

Eu penso nela todos os minutos do dia, e faço um esforço descomunal pra pender o choro quando vejo algo que ela gostaria de ver, como a neve por exemplo.

Eu tenho que fazer um esforço fora do normal pra não ligar pra minha mãe chorando, de meia em meia hora, pedindo pra ela colocar a Mel ao telefone, somente para que eu escute ela falando:

- Ôoi Manhi..

E a voz dela é linda, vocês não fazem idéia de como a vozinha dela é linda. E toda vez que eu vejo qualquer inseto que voa, eu lembro ela não consegue dizer borboleta sem torocar o lugar do R.

E toda vez que eu vejo algum ceral, eu lembro de quando ela mamou aveia pela primeira vez e achou que era bicho.

E toda vez que eu vejo a Moranguinho em algum lugar, eu lembro que ela assistiu o DVD do Moranguinho que eu dei pra ela até furar.

E toda vez que eu ligo o computador, eu lembro dos olhinhos dela brilhando, quando conseguiu pintar uma árvore no Paint pela primeira vez

E toda vez que eu passo batom, eu lembro que eu nunca podia comprar um gloss pra mim sem comprar um pra ela. E lembro quando ela perdeu o gloss que eu tinha dado a ela e teve medo de me magoar.

E toda vez que eu vejo meu dedo indicador, eu fico perguntando se o dela ainda é igualzinho.

E toda vez que eu vejo um carro branco, eu lembro quando ela mal conseguia formar uma frase direito, mas dizia, toda exibida:

"- O caio do vovo é banco"

E toda vez que eu vejo um cachorro pequeno, eu lembro de como ela era feliz, espremendo a Dalila (cachorrinho) no colo 249 vezes por dia. (A Dalila é que não era muito feliz com ela... rsrsrs)

E toda vez que eu páro pra me olhar no espelho e me acho acabada demais eu lembro dela me dizendo:

"- Manhi, quando eu crescer, quero ser bonita igual você!"

E toda vez que eu penso nela eu choro porque eu estou morrendo de saudade e nem posso dar um abraço nela.

E eu choro porque não tinha que ser assim. Eu choro porque nenhuma mãe devia ter que se privar da presença do filho pra poder dar a ele um futuro melhor

Minha garganta dói o tempo todo, como se tivesse um nó dentro dela, parece que há um choro preso, e que não importa o quanto eu chore, ele nunca sai de dentro de mim.

É uma ferida que não cicatriza, um vazio que não se preenche, uma felicidade que eu não consigo mais ter por completo.

Sempre tá faltando um pedaço, sempre tem algo apunhalando meu coração.

E além de passar tudo isso, além de sofrer imaginando a saudade que minha filha tem de mim, além de chorar outras milhões de vezes lembrando as histórias que minha mãe tem que inventar quando ela pergunta porque eu nunca mais apareci pra ver ela... eu ainda tenho que aguentar essas pessoas me julgando, me difamando, julgando minha capacidade de ser mãe.

Eu já não estou sofrendo o suficiente? Eu já não estou chorando o suficiente? Será que não dá pra vocês me deixarem em paz, pelo menos por uns dias??

.......

Afff. Me sinto 345 kilos mais leve.

*: Essas pessoas não são meus pais. Não é a eles que estou me referindo.

Um comentário:

Ká Miranda disse...

Gisa as lágrimas nao param de descer pelo meu rosto...nao consigo...eu tbm deixei a minha filhinha no Brasil e há exatos 10 meses nao posso tocá-la, apesar de falar com ela todos os dias e vê-la pela webcam, falamos por telefone também. A distância me sufoca, me maltrata, nao me deixa em paz. E comigo é a msm coisa,pessoas amargas e ruins acham que abandonei minha filha.Mal sabem elas que ela ainda nao esta cmg por puro capricho do pai dela, que apesar de nao ajudar financeiramente e ver a menina de 15 em 15 dias(morando no msm bairro)nao libera ela pra vir morar comigo. Entao tive q recorer a justiça brasileira (pois é, por isso msm essa demora).
Sou completamente solidária a vc, sei que esse post é de 2008, oro a Deus q sua filhinha já esteja com vc! Eu continuo a minha luta, persistindo, chorando, orando e agradecendo a Deus por tudo!
Beijos!

By Gisa