sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A resposta que eu procurava

Hoje eu voltei ao Hospital para a consulta com a mesma mèdica, mas vou contar no proximo post, porque quero colocar nele um videozinho da Criatura fazendo gracinha para mim rir antes da cirugia, là no Hospital. O videozinho ainda està no celular dele, entao hoje nao vai dar.

Bem, eu tinha que ir ao Hospital e... como a Criatura nao pode pegar "ferias"  todo dia para me levar e trazer do Hospital, e como meu sogro està viajando, pedi para uma dazamigas me levar.

Eis que quando tornamos, fomos tomar um cafè aqui na esquina de casa (vida social, que saudade eu estava de voce!) e conversa vai, conversa vem, ela me disse de uma conhecida que trabalha com "disabili" (outro nome usado na Italia para portadores de necessidades especiais que, assim como "handicap", gera muita confusao e polemica). E como os italianos adoram confusao, se concentram no nome e esquecem o mais importante:

Povo estupido: o problema nao è o nome que voces dao a eles, 
mas a forma como os tratam!

A conhecida da minha amiga trabalha aqui na Italia, e  minha amiga trabalhava com "disabili"  no Brasil,  entao elas conversam muito sobre isso e eu enfim encontrei uma pessoa pra fazer a pergunta que nao me deixava em paz hà anos.

- Edi, voce que tem uma conhecida que trabalha com "disabili" aqui na Italia... me diz uma coisa! Onde estao esses "disabili" que eu nao os vejo em lugar nenhum?
- Estao escondidos em casa.
- Han??? Por que??

E entao ela me explicou que o problema com os disabili aqui na Italia nao è sò uma minha implicancia com os italianos (como poderia parecer), mas sim uma questao muito sèria.

O problema inicia da familia dos portadores de necessidades especiais, principalmente dos pais. Se os pais italianos jà sao superprotetivos com os filhos que sao "normais", imaginem com um filho "disabili".

Eles crescem sendo superprotegidos e passam a vida escutando dos pais que eles nao podem fazer isso, que eles nao podem fazer aquilo, que nao sao capazes de fazer aquilo outro. Sao vistos e quase sempre tratados como um problema.

Ela disse ainda que, sao raras as familias que cercam de criar independencia ao filho "disabile". Na grande maioria das vezes, eles sao ensinados que nao sao capazes de fazer nada e a historia termina aì.

Ah, espera, nao! Nao termina aì.

O problema è que se a familia dele pensa assim, è porque esse pensamento vem de algum lugar.

Vem da cultura italiana, da sociedade italiana, das empresas italianas que ainda nao se adaptaram e preferem pagar  multa por nao ter funcionarios disabili ao invès de contrata-los, porque acham que eles sao incapazes e que  sò trarao problemas à empresa.

Em um pais de mentes obtusas como a Italia, era de se prever que uma simples lei nao iria mudar o modo de pensar do italiano. Mais que qualquer outra coisa, a Italia precisa de conscientizaçao. Mobilizaçao, protesto, publicidade, qualquer coisa que explique aos italianos que o ponto de vista deles em relaçao às pessoas com mobilidade limitada è completamente distorcido.

Eh um circulo vicioso: a familia nao os incentiva, as empresas nao os contratam, a sociedade nao ve eles trabalhando. Todo mundo pensa que o problema sao eles (os "disabili"), quando na verdade o problema è na sociedade, que os ve como um empecilho, um ser inutil que nao è capaz de fazer nada.

Conhecendo agora a linha de pensamento predominante na Italia, agora nao è de se surpeender com a senhora que duvidou que o rapaz "disabile" da festa fosse professor. Nem è de se surpreender porque o outro rapaz riu. E menos ainda porque todos olhavam assustados para a moça "disabile" com o namorado.


Um bom exemplo da mentalidade italiana è a historia de uma parente da familia Versace, que teve uma perna amputada apòs um acidente de carro e quando retornou ao trabalho descobriu que tinham colocado outra pessoa para fazer o seu trabalho. (Ela continuava funcionaria da empresa, mas tinham rebaixado ela de cargo). Ela teve que entrar na Justiça para comprovar que a perda de uma perna nao tinha afetado em nada sua capacidade de desenhar roupas.


Neste ponto, sei que nao è exagero meu dizer que no Brasil estamos cem anos luz avante da ITalia. No paìs do Carnaval muitas pessoas ainda podem se sentir "a disagio" (pouco confortavel) com a presença dos "disabili" em sua vida social, tem ainda o preconceito e falta de informaçao em relaçao à sua sexualidade, mas sem duvida avançamos muito na quebra de paradigmas em relaçao à capacidade deles de contribuirem para a sociedade, ao reconhecer o direito deles de ir e vir, de namorar, de casar, de ter familia, de poder simplesmente ser visto pelo que sao: pessoas normais, com limite de moblilidade ou necessidades especiais.

Serà que algum dia a Italia tambem os verà desta maneira?

Speriamo.

6 comentários:

Eliana disse...

Muito peculiar a sua colocação. Aqui na Holanda, eu acho que a coisa funciona bem diferente. Eu só tenho medo dos que possuem limitações mentais serem tratados como "normais". Houveram dois episódios recentes de que uma mulher colocou fogo no apartamento, quase mandou tudo pelos ares e um senhor tentou se matar em casa. Ambos tinham recebido "alta"e deveriam seguir com suas vidas da forma mais normal possível sem uma assistência, porque supostamente eles poderiam liderar com suas vidas. No entanto isso é um ponto totalmente diferente do que vc expôs aqui, no caso, uma deficiência física e não mental. Aqui teve um anúncio pra pessoas que têm algum problema com quem "têm problema"...é bem engraçado o comercial até porque num ele fala algo como: se vc tem algum problema porque eu sou um altista, ligue pra este número. Eles vão te ajudar com o "seu problema". rs
E sim, é uma questão social.

Ana disse...

Que coisa mais triste, essa situação dos disabili na Itália! Realmente, aqui a gente não tem isso não, mas também não é coisa comum, encontrá-los estudando ou trabalhando. Nos Estados Unidos, eu lembro que estudava com pessoas "handicapped", era relativamente normal encontrá-los em escolas, e os colegas em geral aceitavam bem. Ainda falta muito, em qualquer parte do mundo, para melhorar isso.

Neanderthal disse...

Curioso... Não sabia que era assim por aí!
Minha mãe trabalha com crianças com necessidades especiais e sua ressocialização, que tem objetivo totalmente oposto ao que vc descreveu!
Claro que eles são plenamente capazes e muito competentes. Uma vez, visitando os laboratórios da fiocruz, notei que lá eles empregam nos laboratórios e diversas outras áreas pessoas com deficiências! Eles vem de uma cooperativa que profissionaliza essas pessoas e os inserem no mercado de trabalho. Acho super bonito!
Beijos

Bruxa do 203 disse...

Estranho mesmo, até porque muitos fazem até esportes, participam de competições, enfim, levam uma vida normal. No Brasil a única parte realmente ruim é a falta de ônibus, portas, prédios, etc com adaptação e espaço para passar com a cadeira. Outro problema é a área reservada nos estacionamentos que sempre tem um palhaço que ocupa indevidamente.

Dan disse...

Ótimo texto, mostrou que a situação com deficiência física aí na itália é mais complicada do que mostram ser e verdade, mesmo sendo um pais extremamente desenvolvido a Itália encontra-se para no tempo em relação a essas pessoas, no Brasil é lei contratar não só deficientes físicos, mas mentais também...

Aline Souza disse...

Gisa, uma das coisas que acho bacana aqui no Tio Sam e' que no geral, eles sao super inclusivos com as pessoas com necessidades especiais. As calcadas, transporte publico, aceitacao em isntituicao de ensino superior... enfim, eles levam a vida mais proximo do "normal" possivel. E no geral, nao ha nenhum choque como o que vc descreveu na Italia. Triste pensar que existem lugares como o que vc descreveu :(

By Gisa