sábado, 1 de março de 2008

Entenda (de uma vez por todas!) a (minha) ANOREXIA

(Este depoimento foi escrito em partes, ao longo dos 4 anos em que tive anorexia. Então, não sei ao certo sua data de publicação. Entendi a causa da minha anorexia no início de 2008, 'tratei' a causa e desde então não tive mais nenhuma recaída. Eu deixei de me enxergar gorda no espelho em Outubro de 2008, inexplicavelmente.)

"Estou tomando uma atitude que considero muito corajosa hoje.

Em parte, pelo fato de estar cansada me me esconder. Mas acho que o motivo principal é não ter como desabafar, então acho que vou usar o blog. Não queria fazer isso, porque o objetivo principal deste blog, quando criado, foi de deixar registradas as gracinhas de minha filhinha e as bobeiras que acontecem no meu dia-a-dia.


Mas resolvi falar sobre isso aqui, agora. Se eu mudar de idéia, apago os posts depois, mas no momento, EU PRECISO DESABAFAR. Pensei em reativar um outro blog que eu tinha para desabafos, mas também estaria me escondendo.

Nunca disse isso antes porque acho que há um preconceito muito grande quanto à anorexia... e eu cansei de ser xingada de coisas como "fresca", "louca", "patricinha mimada", etc. Bom, eu acho que já superei bastante, atualmente peso 53 kg (tenho 1,65 de altura), mas tenho algumas recaídas de vez em quando, algumas dificuldades com as quais convivo diariamente e tive que tomar algumas medidas drásticas. Vou explicar por partes:


As recaídas

Acontecem esporadicamente. Às vezes porque acordo me sentindo absurdamente gorda, às vezes porque passo por algum momento muito stressante e, o fato inédito, é esta recaída que estou tendo agora, porque tive um resfriado que me fez perder o apetite.


Quando dei por mim, já estava comendo poucas calorias por dia já fazia algum tempo. Acordei esses dias, e ao passar a mão pelo meu tórax, senti um ossinho que fazia um tempão que eu não sentia. Eu estava mais magra.

Não vou mentir, fiquei feliz. Me lembrei de como era prazeroso acordar dia após dia e me sentir cada vez mais magra, descobrir um osso que eu nunca tinha sentido. É, eu sei, é doentio... mas é isso que a anorexia é: uma doença. Não é um estilo de vida, não é uma modinha (pelo menos pra quem tem de verdade), não é frescura. É doença.


Antes dessa recaída que estou tendo agora, tive uma outra recaída bem séria, que atacou os meus rins e me fez desmaiar algumas vezes.
Eu não conseguia mais trabalhar, de tão fraca que fiquei. Tinha crises de hipoglicemia e não conseguia ficar em pé. Tive que ir para o hospital. Tomei algumas vitaminas, antidepressivo... comecei minha batalha toda novamente (ir comendo aos poucos).
Essa recaída que me fez ficar de cama me assustou bastante porque eu nem cheguei a emagrecer. Nem fiquei muitos dias sem comer. Acho que meu ornanismo ainda não tinha se recuperado da recaída que havia tido antes dessa.
Eu pensei que ia morrer e decidi que não importava o quão gorda eu ficasse, nunca mais ia ficar sem comer. E fiquei 6 meses comendo normal. Aí tive uma gripe, em Fevereiro deste ano (2008) e estou nesta recaída até hoje (Março/2008).

Antes de continuar, gostaria de esclarecer algumas coisas:

1. Nao tive anorexia fazendo regime por desejar esse padrão de beleza imposto pela mídia. Então, não deixe um comentário dizendo que sou retardada, porque eu não sou. Minha anorexia teve uma causa muito mais complexa que um padrão de beleza imposto pela mídia.


2. É... hoje eu tenho ânsia porque quando comia mais de 100 calorias por dia, provocava vômito para tirar o excesso. Também é culpa minha. Você também não precisa deixar um comentário me dizendo isso.

3. Não sou pró Anna/Mia e odeio essa modinha. Então, se você é, não me adicione. Se você odeia quem é, não perca seu tempo me odiando, porque eu não sou.

4. Sim, eu me acho absurdamente gorda. Sua opinião não vai mudar isso, então, não perca seu tempo me deixando um comentário dizendo que sou magra.

5. Não vou ensinar ninguem a 'pegar' anorexia e a 'miar', então, também não adianta deixar um comentário aqui me perguntando, porque eu não vou responder. Também não adianta querer me perguntar essas coisas fingindo ser um trabalho de escola... já fui entrevistada inúmeras vezes e conheço a diferença entre uma entrevista com fins acadêmicos e uma com fins 'doentios'.


Agora posso continuar:

Dificuldades com as quais convivo

Tenho que fazer um esforço descomunal para comer. Não é que eu queira deixar de comer para emagrecer, mas o que acontece é que a comida parece crescer na minha boca.


Um garfo de arroz com feijão parece se tornar um elefante quando começo a mastigar. Na maioria das vezes, mastigo e engulo a comida nos intervalos das ânsias que tenho quando estou comendo.

Acreditem, o que é um prazer para muitas pessoas, pra mim é um momento torturante. Algumas vezes como chorando.


Choro porque enquanto estou comendo, tenho que convencer o meu estômago de que não é uma boa hora para vomitar.

Choro porque queria gostar de comer. Choro porque sei que se não comer, vou voltar a ficar doente.

Choro porque, às vezes, depois de tanto esforço pra comer uma comida deliciosa, que meu marido levou horas pra fazer, meu organismo simplesmente decide que não quer que essa comida fique no meu estômago.

Não, eu não vomito de propósito. Já passei dessa fase. E eu não tive bulimia... nunca fui uma daquelas maníacas compulsivas por comida que consomem 2000 calorias de uma vez só e depois vomita tudo. Eu vomitava quando comia 300 calorias por dia ao invés de 100.

Nunca consegui comer muito. Mas eu já vomitei de propósito sim; vomitei tanto que com o tempo eu aprendi a movimentar meu tórax de forma que causasse contrações no meu estômago. É, é doentio também, eu sei. Mas não faço isso há muito tempo. Hoje eu só queria conseguir comer sem que isso fosse uma tortura.
Quando consigo comer depois de muito esforço, vem a parte mais difícil: segurar a comida no estômago. Eu tomo água, fumo um cigarro (sim, fumar ajuda), lavo meu rosto com água fria (também ajuda), tomo um banho quente e não faço esforço físico até a digestão estar completa.


É um martírio. Comer fora de casa é pior ainda. Preciso ficar vários minutos sentada, pra comida 'descer'.


O início...
Fui uma gordinha feliz até os 12 anos. Nesse ano, uma tia distante de minha mãe veio passar férias em casa e se assustou com minha gordura. Minha mãe ficou encanada e me levou à um médico que me deu moderadores de apetite. Moderadores de apetite a uma criança de 12 anos. Quem é o doente??

Emagreci muito, e fiquei em um emagrece/engorda até os 17 anos. Daí estabilizei nos 59 quilos e esqueci os regimes. Até os 19 anos, quando fiquei pela primeira vez com 47 quilos.

Aí engordei novamente, e só fui emagrecer novamente quando engravidei de minha filha. Engrevidei com 59 quilos e dei à luz com 54. Ao invés de engordar 9 quilos, eu emagreci 5. Não foi culpa minha. Por um destes insondáveis mistérios da natureza, eu tive enjôo durante os 9 meses, e só sopa e iogurte paravam no meu estômago.

Mas eu comecei a comer só 100 calorias por dia só aos 24 anos. Não sei muito bem como isso aconteceu. Me lembro que um dia eu estava almoçando... e de repente perdi a fome porque me vi inacreditavelmente gorda, parecia que eu tinha 80 quilos. Me pesei e a balança me dizia 59. Mas eu não acreditava no que a balança me dizia... acreditava no que os meus olhos viam. E eles enxergavam uma baleia na frente do espelho.


Não sei como isso pode acontecer, nem os médicos sabem... só sei que não importa o quanto a gente emagreça, a gente nunca se enxerga magro.

Nessa época em que comia só 100 calorias por dia, eu cheguei a pesar 45 quilos, e ainda via a mesma baleia de 80 quilos no espelho. Talvez um erro crucial tenha sido abandonar a balança, pois era ela quem me dizia a verdade.


Mas quando percebi que os quilos na balança diminuiam e a minha imagem no espelho não, eu desisti dela.

O que eu sentia era algo realmente doentio. Quando eu acordava, passava a mão pelo meu corpo, pra ver se tinha emagrecido. E mesmo que eu tivesse, ao me olhar o espelho, a sensação de magreza desaparecia.

Talvez a mesma coisa que faça a gente se ver gorda seja o que faça a gente também se preocupar tanto com isso. Sim, porque tem gente que é muito gorda e é muito feliz. Mas pra quem tem anorexia, é a morte.


O diagnóstico

Descobri que tinha anorexia aos 26 anos, quando meu namorado (que na época era apenas meu amigo) me perguntou o quanto eu queria emagrecer. Eu mostrei a ele a foto de uma amiga (bem mais gorda do que eu) e disse que quando tivesse com o corpo mais ou menos como o dela (que eu achava lindo), pararia de fazer regime. Ele me disse que eu já estava bem mais magra do que ela. Eu fiquei um pouco confusa... mas não acreditei.

Alguns dias depois eu fui na casa dessa amiga e ela começou a dizer que eu estava doente, de tão magra. Eu disse que ela era bem mais magra do que eu... e ela ficou assustada.

Ela me levou pra frente do espelho e ficou ao meu lado, pedindo para que eu olhasse bem. Eu continuei insistindo que ela era mais magra. Não era culpa minha... a minha imagem que eu via no espelho era a de uma mulher de 80 kilos.

Ela me mandou tirar a roupa, tirou a dela também, vestiu a minha e me mandou vestir a dela. Foi nesse momento que percebi que tinha algo errado com a imagem que eu via no espelho. Minha roupa não entrou nela, e a dela ficou absurdamente larga em mim. Nesse dia a ficha caiu... e eu percebi que estava mesmo doente. Busquei tratamento, que não deu muito certo, e fui voltando a comer aos poucos.

Foi muito difícil porque já fazia mais de um ano que eu comia menos de 300 calorias por dia. Nos últimos meses, tinha comido só 100.


Meu cérebro (quando não estou tendo recaídas)

Mesmo quando não estou tendo recaídas, meu cérebro atua de maneira estranha. Por exemplo, o gosto da comida é medido por ele através de quantas calorias essa comida tem. Exemplo: Eu gosto mais de um prato de abobrinha refogada (que tem 32 calorias) do que uma colher de mousse de maracujá (que tem 110).

Não consigo mais achar gostoso o alimento que é muito calórico. Mousses, doces, massas... Eu me lembro que era muito gostoso... mas na hora que vou comer, não consigo sentir o gosto.

Sorvetes... meu namorado compra e eu como um pedaço. O fato de meu marido gostar muito de doce ajuda... não sei se pro bem ou pro mal.

Exemplo: Quando vivia com meu ex-marido, que não gostava muito de doces, eu comprava um chocolate prestígio e levava uma semana pra comer. Dividia em 7 pedaços e comia um pedaço por dia. Com meu marido, eu como só os pedaços que quero... sem ter que comer o doce inteiro. Estão vendo?? Minha mente é maquiavélica...


Porque ainda não morri

Talvez o fato de eu não ter adoecido gravemente ainda é que eu me considero um pouco mais responsável do que as outras pessoas que tem anorexia. Já vi mulheres que, se elas tem que passar o dia com 300 calorias, elas comem 3 colheres de leite condensado. E não comem mais nada.

Quando eu só comia 300 calorias, eu comia muita coisa:

300 Cal = 1 prato de abobrinha + 1 pepino inteiro + 1/2 pote de iogurte light + 1 prato de alface + 1 sanduiche com pão e presuntos light + 1/2 barra de cereais light

Parece pouco, mas pra quem tem anorexia... é um absurdo de comida! Esse foi o meu cardápio por vários meses. Eu mudava as verduras e os legumes... mudava o tipo de pão... o tipo de presunto... o sabor do iogurte... mas tudo light. Algumas vezes trocava tudo isso por um pouco de arroz com feijão... mas era raro. E uma vez por semana eu comia carne... geralmente fígado.


Medidas drásticas que tive que adotar

Não tenho mais espelho grande em casa. Só tenho um espelho no armário do banheiro, suficiente para pentear meus cabelos. Assim, não me vejo nua e esqueço que sou gorda. Sim, eu me acho gorda. Eu sei que todo mundo diz que tenho um peso normal, mas me olho no espelho e vejo uma baleia.

Procuro comer quando tenho fome (sim, às vezes isso acontece), não importa que sejam 3:00 da manhã. Se como quando estou com fome, é mais fácil não vomitar.

Evito comer coisas muito calóricas. Evitar a consciencia pesada por ter ingerido muitas calorias evita que eu tenha uma crise de bulimia e vomite por querer.

É assim a minha vida.

Quer saber o que eu tenho sentido nesses últimos meses?

Tenho sentido tonturas, dores musculares, fraqueza (muita fraqueza), tremedeira e falta de ar. Já me acostumei com estes sintomas, eles se tornaram parte da minha vida. Mas tenho me esforçado muuuito pra comer. Estou me esforçando.

Juro que estou.

Bom, é isso que eu tinha pra dizer.

Mais uma vez...

perdoem os meus desabafos...


Um comentário:

Fernanda Falleiro disse...

Oi Gisa, encontrei seu blog por acaso pesquisando sobre a segunda guerra.
Esse seu post foi estranhamente esclarecedor, não que eu tenha anorexia ou bulimia, longe disso, bem longe diga-se de passagem, rs, mas cheguei perto uma vez que minha carreira, sou atriz, estava me exigindo um corpo bem menor do que o que eu sempre tive, emagreci muito e já não me dava conta, até que aconteceu algo muito parecido com o que vc contou da sua amiga...Nunca tinha lido um depoimento tão "nu" sobre essa doença.
Enfim me enrolei mais que o necessario pra dizer que torço por vc, que adorei sua filha e achei ela muito esperta!
Estou copiando seu link para poder te "visitar" de vez em quando!
Um beijo grande pra vc, saude para o seu pai e para a sua familia!

By Gisa