quarta-feira, 14 de março de 2012

Luana, tambem tentaram me matar!

O post da Luana me fez lembrar algo parecido que vivi quando morava sozinha pra fazer faculdade em Ivaipora, uma cidadezinha perdida no meio do mato do Paranà.

Eu trabalhava no Detran de là, e acabava conhecendo muita gente... tanta gente que eu nem lembrava depois!

Pois bem, todo fim de semana eu ia pra minha cidade natal (uma cidadezinhazinha no meio do mato) e voltava no domingo à noite, sempre na mesma hora.

A rodoviaria era bem longe da minha casa e como nao tinha onibus publico e eu nao tinha grana pra taxi, eu ia a pè... o que nao tinha sido nenhum problema atè aquela noite.

Eu cheguei em Ivaipora, como sempre, às 10 da noite. Tinha uma chuva horrorosa e, como eu nao tinha guarda-chuva e como se eu esperasse passar ia ficar muito tarde pra ir pra casa sozinha (era uma caminhada de meia hora atè minha casa), eu resolvi ir na chuva, mesmo.

Nao era que eu fosse louca, è que eu nao tinha outra opçao. Eu poderia chamar alguem do trabalho pra ir me buscar... mas eu morria (e ainda morro) de vergonha de pedir favores, qualquer um que seja.
"Chego em casa e tomo um banho quente, pronto!"

Entao là fui eu... com uma mala nas maos (daquelas tipo esportiva que a gente leva na academia) e tomando chuva.

Quando tinha feito uns 10 minutos de caminhada eu jà estava encharcada e eis que um carro parou ao meu lado e me ofereceu uma carona.

"Vai sonhando", eu pensei... continuei andando e nem dei bola.
Aì o cara começou a falar:
- Sou o fulano... nao tà lembrado de mim?
- Nao. (Eu olhei pra ele mas tava escuro, nao consegui ver o rosto)
- Eu conheço voce, sou amigo do Blabladim (meu chefe). Eu tava naquele churrasco que voces fizeram pro aniversario da Debora. Sou vizinho do Blablarata (um ex-funcionario aposentado que sempre tava por là).
- Nao lembro, desculpa.
- Voce tà toda molhada! Entra aì, nao seja boba! Todo mundo me conhece Gisa (ele me chamou pelo nome), inclusive voce. Assim voce vai pegar uma pneumonia!

Eu parei e pensei. O cara sabia meu nome, conhecia meu chefe, meus amigos, etc. Devia ser alguem que eu conhecia... mas que nao lembrava. E alguem que conhece tanta gente que eu conheço deve ser ... "gente boa"... porque eu sò conhecia pessoas boas.

Entao eu cometi o erro de entrar no carro.

Assim que entrei, a luz se acendeu e eu percebi que nunca tinha visto o fulano antes. Tentei abrir a porta, mas a essa altura ele jà tava a andando a 60 km/h.

- Eu nao lembro de voce, me deixe sair, por favor.
- Que isso, Gisa! Eu sou gente boa, fica tranquila!

Aì eu me dei conta que o fulando nao tinha perguntado onde eu morava... e estava saindo da cidade.

- Onde voce tà indo? Minha casa nao è por aqui!
- Estou sò to aumentando o caminho, assim a gente pode se conhecer melhor.

Nesse momento eu jà estava praticamente fora da cidade, no meio da BR com mato pra todo lado.

Ele tocou minha perna. Eu tirei a mao. Ele diminuiu a velocidade e entrou em uma estradinha de terra. Lembrei que ninguem sabia que eu tava com ele. Nao tinha ninguem me esperando em casa. Eu nao era do tipo que quando chegava em casa ligava para os pais pra avisar que tava tudo bem... entao meus pais nao esperavam um telefonema.

Aì a ficha caiu. Tava claro o que ia acontecer. Eu jà via as manchetes do jornal da cidade: "Corpo de jovem encontrado desfigurado em matagal. Sinais de violencia sexual." Eu sempre digo que naquele momento Deus me deu sabedoria. Uma sabedoria que provavelmente eu nunca tive antes nem depois daquele momento. Foi sò naquele momento, sò ali.

Me dei conta que ELE nao sabia que ninguem estava me esperando. Entao comecei a falar:
- Eu tenho que ir pra casa, minha colega de quarto vai ficar preocupada. Meus pais vao ligar e eu nao vou ter chegado e vao ficar desesperados! (detalhe: eu morava sozinha e nem tinha telefone).
- Daqui meia hora a gente vai.

E foi nesse momento que palavras começaram a sair da minha boca sem que meu cerebro tivesse a menor ideia do que eu estava dizendo:
- Olha... Eu gostei de voce. Gostei mesmo... (sorrisao falso)... mas nao quero começar errado. A esta altura meus pais jà devem ter ligado pra minha casa e minha colega deve ter dito que eu nao cheguei ainda. Eles vao ficar preocupados...
- Voce gostou de mim?
- Claro que gostei. Voce è bonito, simpatico, educado... mas olha pra mim... estou toda molhada! Vou pegar um resfriado!
- Entao a gente pode se ver?
- Amanha, quando eu sair do trabalho...
- Vou te buscar! Que horas voces fecham?

Peraì. O cara è super amigo do meu chefe, do Blablarata, da Debora... e nao sabe que horas a gente sai? Como assim, Bial?

- Saio às seis. (Mentira, eu saìa às cinco)
- As seis eu vou estar ali fora, te esperando.
- Ok. Mas agora voce tem que me levar pra casa.
- Entao me dà um beijo!
- Mas eu nao te conheço!
- Mas voce disse que gostou de mim!
- Gostei mas nao beijo quem nao conheço sò porque ele è simpatico!
- Um abraço?

E eu dei um abraço nele, esperando que uma faca nao me perfurasse meu fìgado. Dei um abraço forte, acariciei seus cabelos e disse:
- Eu acho que a gente pode dar certo. Sò te peço um pouco de paciencia.

Gente, fala sèrio. Nao dà a sensaçao de que eu estou falando com um serial killer, tentando fazer ele nao me matar?

- Agora me leva pra casa, que a esse ponto meus pais jà devem ter colocado o Blabladim (meu chefe) atràs de mim.
- Seus pais conhecem o Blabladim?
- Claro! Como voce acha que eu consegui esse emprego? (Mentira. Meus pais nunca viram Blabladim mais gordo!)

Nesse momento ele ligou o carro e começou a voltar à cidade, andando à 20km/h.

Fiz ele me deixar em frente de uma casa (que nao era a minha) e esperei que ele fosse embora, o que nao aconteceu.

- Vou esperar voce entrar, pra ter certeza que ninguem vai te fazer mal.
Sèrio?

Foi nesse momento que fiz uma coisa alucinante: abri o portao de uma casa de uma pessoa que eu nao conhecia (esperando que nenhum pitbull viesse me comer), andei pelo jardim atè chegar à porta e como, obviamente, eu nao podia abrir, fiz de conta que procurava as chaves. Ele deu uma buzinada e foi embora. Eu corri atè o portao e me escondi atràs de um arbusto (vai que o maniaco volta, nèam?). Ele voltou, passou devagarinho, provavelmente pensou que eu jà tivesse entrado e foi embora. Eu levantei, sai do jardim de alguem desconhecido e fui embora.

No outro dia eu contei à Debora e ao Blabladim o que tinha acontecido. Disse o nome do psicopata, mas eles nao o conheciam.

Dois dias depois ele me ligou dizendo que me esperou atè seis e meia no dia anterior e que eu nao apareci. Eu disse que houvemos um problema e tivemos que sair mais cedo.
- Vem amanha!
- Ok.
Eu nao queria ve-lo "amanha", sò queria que ele desligasse o telefone para eu ver (tinhamos Bina) o numero.

Liguei para o numero e uma mulher respondeu:
- Supermercado blablabla, boa tarde!

Desliguei e corri pra sala do meu chefe. Disse da onde era o numero e ele disse que conhecia o psicopata. Nao era seu amigo, mas sabia quem era.
Blabladim (meu chefe) ligou pro psicopata e disse pra ele parar com aquilo, que estava me assustando. E tambem perguntou:
- Mas voce nao è casado?
Serio? Como assim, Bial?

Depois daquilo ele me deixou em paz. Acho que ele ficou com medo porque AGORA alguem sabia que ele tava tentando me matar me perseguindo.

Meses depois eu estava indo com amigas para uma festa quando... um carro pàra e oferece carona.
- Eu nao vou de carona.
- Relaxa, Gisa! Ele è meu amigo!

Entro no carro e quem era o motorista? O senhor psicopata. (entao aparentemente ele fica rodando de carro de noite, procurando garotas para matar dar carona!)

Eu fiz de conta que nao o conhecia... e disse que me chamava Camila. Depois contei à minha amiga que era aquele cara o psicopata e ela nao acreditou:

- Imagina! O fulano te levando pro matagal! Ele è casado, tem filhos, è super gente boa! Voce deve ter se confudido.

Entao... Luana, aquele serial killer de Narnia do Sul tambèm nao era casado, tinha filhos e era super gente boa?

Eh de arrepiar. Ao contrario da Luana, nao consigo  rir com a historia. Passei medo demais. Os olhos dele ainda me assustam em alguns pesadelos. Era um olhar frio, vidrado, fixo... obssessivo. E azuis. Depois disso nunca mais consegui me relacionar com homens de olhos azuis.

Fim da història.

Ah, nao, nao acabou nao: O Blabladim (meu chefe, casado, pai de 2 filhos, "super gente boa") me agarrou à força, tres meses depois. Um outro funcionario, casado, pai de dois filhos, policial, "super gente boa", fez algo muito alèm de me agarrar a força, se è que voces me entendem. O fila-da-mae ainda me deixou um chupao enorme no pescoço e eu tive que ouvir piadinhas no trabalho, no dia seguinte. 

Nao contei nada pra ninguem e pedi demissao. O meu chefe Blabladim nao aceitou minha demissao e nao queria me deixar ir embora. Liguei para meu superior em Curitiba e disse que estava com depressao, que tinha atè tentado cortar os pulsos e que se ele nao me desse a demissao eu iria me matar dentro do Detran (era mentira). Ele me mandou ir pra casa sem falar nada pro Blabladim.

"Mas e os papeis que preciso assinar?" 
"Nao se preocupe", disse ele. "Vou atè sua cidadezinhazinha semana que vem pra te dar os papeis".
E ele foi mesmo. E quebrou a cadeira quando foi sentar (hahaha - desculpa gente, ALGUMA coisa engraçada eu tenho que achar nessa historia toda, nèam?). Ele sentou na cadeira, a bicha quebrou e ele caiu sentado no chao. E eu segurando a gargalhada, pra ele nao pensar "Mas voce nao tava com depressao?". hehehe. 

Bom, eu arrumei um trabalho muito melhor em uma outra cidadezinhazinha e me mudei pra là, esperando retornar à faculdade no ano seguinte (Ao contrario da minha cidadezinhazinha, aquela tinha um onibus que levava os estudantes para a cidadezinha que tinha a faculdade). Alem disso eu nao morava sozinha, mas com a familia dona da escola de informatica onde fui trabalhar como instrutora. Estava tudo muito bem, eu estava super feliz...

... Mas aì um dia eu vejo um carro vermelho passar varias vezes em frente da escola e... advinhem? Era o policial. Ele ainda estava me perseguindo. Ivaipora ficava a 90 km da cidadezinhazinha onde eu estava agora... e mesmo assim ele me encontrou. (E eu nao tinha falado pra ninguem do ex-trabalho que eu ia me mudar para aquela cidadezinhazinha.)

Aì eu pirei. Vi que nao estava segura em nenhum outro lugar a nao ser minha cidadezinhazinha natal, onde todos me conheciam. Nao podia mais ver um carro vermelho que eu ficava louca. Um dia o policial veio atè a escola falar comigo (bem em um momento em que eu estava... advinhem... sozinha). Po sorte um menino que sempre parava li pra bater papo comigo chegou minutos depois e o policial foi embora. Liguei chorando pra minha mae e disse que queria ir pra casa, que ela devia vir me buscar. Eu devia estar mesmo desesperada, porque quarenta minutos depois ela estava ali. (Era exatamente o tempo de carro de minha cidade natal à cidadezinhazinha... o que significa que ela partiu assim que desligou o telefone). Larguei tudo e voltei pra minha cidade natal. Eu tinha 17 anos, tinha abandonado a faculdade, largado o emprego... e voltei a morar com meus pais. (O que, na minha cabeça, depois de ter me arranjado sozinha, era um "retrocesso")

Por ironia, entrei em depressao (dessa vez de verdade) e sofri por um ano inteiro. Depois decidi que aquele policial jà tinha estragado demais a minha vida, e que eu nao podia deixar ele estragar todo o resto dela. Tà, eu tinha sido violentada... mas e daì? Eu ainda tava viva, tinha 18 anos e toda a vida pela frente. Eu poderia culpà-lo pelo resto da vida por ter arruinado meus sonhos ou... poderia fazer com que ele nao arruinasse. Eu tinha o poder, nao ele. E foi assim que superei. 

Nunca deixei que isso interferisse em meus relacionamentos sexuais pessoais. Acho que a coisa mais dificil pra quem sofre esse tipo de abuso è conseguir separar o violentador do resto dos homens. Eh a coisa mais dificil e a mais importante para a superaçao. A unica coisa que sinto è um arrependimento enorme de ter abandonado a faculdade. Mas eu sentia muito, mas muito, mas muito medo mesmo. Tambem me arrependo de nao ter contado à ninguem, na època. Mas como quase ninguem tinha acreditado na historia do psicopata, imaginem se eu falasse do policial (que era idolatrado na cidade)?.  A unica coisa que nao superei è que nao suporto que alguem coloque a mao em meu pescoço. Mas isso nao me incomoda muito, porque, afinal, por que è que as pessoas devem colocar a mao em meu pescoço?

Eu encontrei uma força enorme para superar uma coisa ruim... força que atè hoje eu nao sei de onde apareceu... Mas foi super bem-vinda e permitiu que eu reconstruisse minha vida.

Eh isso aeee. Espero nao ter deixado voces constrangidos. De repente me deu vontade de contar... nao sei exatamente por que, mas... foi assim.
Beijocas!

PS: Nao me achem louca, mas a historia do psicopata foi mais assustadora pra mim. Isso  porque  eu sabia exatamente o que o policial queria (e ele nao queria me matar, embora tivesse uma arma). Eu sabia que se mantivesse a frieza ele nao me mataria, pois nao era esse o seu objetivo. Eu tambem sabia que ele sabia que ninguem nunca acreditaria em mim, entao eu nao era uma testemunha a considerar importante.  Ele ia me machucar, mas era sò isso. Ele nao iria me espancar, porque ele era inteligente demais pra deixar sinais de violencia. Ele ia fazer tudo devagar, direitinho, com preservativo, pra depois poder dizer que nao forçou nada. Jà o psicopata tinha olhos esbugalhados e parecia um louco quando me olhava. O policial era sò um frustrado que precisava usar uma arma pra sair com uma garota. O psicopata parecia ser aqueles caras que torturam uma garota por meses, deixando ela trancada em um porao, para depois matà-la com um alicatinho de cuticula dia apos dia.
Entao porque eu nao denunciei o policial?  Porque em 1997 ninguem ia usar exame de DNA pra provar uma violencia. Talvez provassem que eu tinha sido violentada, mas... por quem? Seria a minha palavra contra a dele, e ele poderia me matar a qualquer momento que se sentisse ameaçado.
By Gisa